Crítica: Para Roma Com Amor


(Essa crítica é focada em um dos segmentos do filme, sem se aprofundar nos outros)

SPOILERS ABAIXO:

Talvez não tenha existido na história da sétima arte um cineasta com tamanho apresso pelos amores fugazes quanto Woody Allen. A prova é que, desde “Manhattan”, praticamente todos os filmes tem o foco em um relacionamento que tem começo, meio e fim dentro da própria tela. Em “Annie Hall”, o personagem principal começa um relacionamento com uma tímida Annie, apenas para vê-la se tornar mais confiante enquanto sua insegurança aflora e pequenas belezas passam a incomodar com o tempo, mas mesmo assim o próprio quem vai até Annie para trazê-la de volta e, ao não conseguir, imortaliza a relação em um final feliz na arte. “Annie Hall” acaba por ser um elogio do próprio Allen ao amor fugaz.

Mas o resultado de um amor fugaz é imprevisível. Em “Hanna e suas Irmãs” a paixão de um homem pela cunhada o leva a valorizar aquilo que ele construiu com a própria mulher (assim como em “Manhattan”), em “Match Point” a arrebatadora paixão traz à tragédia (com direito a ópera), em “Vicky Cristina Barcelona” a paixão das personagens pelo mesmo homem leva duas mulheres a verem as tristezas da forma com que elas encararam a vida. “Para Roma com Amor” acaba por consegui trazer um novo prisma para esse mesmo assunto.

Jack (Jessie Einsenberg) se apaixona perdidamente pela melhor amiga de sua namorada, algo já aconteceu em outros filmes do cineasta. Um dos pontos que difere esse filme dos demais é a escolha do mentor que aconselha o Jack por todo o caminho. Colocar o conselheiro John (interpretado por um cada vez melhor Alec Baldwin)  no meio da cena, quebrando momentos de clímax, contando defeitos da garota, mostrando seus pontos fracos e fazendo piada do seu ego gigantesco, é um ótimo diferencial. É comum para os filmes de Allen construir uma aura que faz com que o próprio expectador compreenda e acompanhe o fascínio que o personagem tem pela mulher envolvida. O que muda em “Para Roma com Amor” é que a existência de John deixa claro que Jack conhecia esses defeitos desde o começo do relacionamento, ele só escolheu ignora-los.

Importante notar a escolha de Ellen Page para o papel de Mônica (interesse romântico de Jack), com seu rosto de criança, bochechas grandes e corpo reto. Se todo o furor sexual da personagem era pregado antes que ela aparecesse em cena, ele não se justifica visualmente quando ela surge (não que ela não seja bonita, apenas não corresponde visualmente ao furacão que foi descrito). Tudo que ela causa no personagem principal é fruto das provocações da própria namorada e ramificações das implicâncias e da atenção que Jack recebe. Simples assim.

Quanto ao mentor, o filme acerta ao não explica-lo, dando várias possibilidades. Jack pode ter personificado em John uma parte do seu inconsciente ou o jovem pode ser um retrato do passado do próprio mentor. É interessante como a experiência de John o faz decifrar as ações de Monica tão facilmente, como se ele tivesse o poder de ver um quadro maior dos acontecimentos (como Boris em “Tudo pode dar certo”), enquanto o jovem tem a visão exclusiva para aquilo que ele deseja ver. Talvez as coisas sejam diferentes quando for John quem estiver completamente apaixonado, talvez ele mesmo seja seduzido por aquilo que ele deseja ver, mas acredito que para tal é necessário mais que algumas frases soltas, gosto de acreditar que o objeto de adoração para John (que já percorreu muito mais estradas que Jack) tem que ser muito mais interessante.

No fim, quando Mônica avisa que está deixando Roma e esquecendo todos os planos Jack fez para os dois, não consegui ver raiva ou decepção na expressão do rapaz, pois não é possível senti-los a partir do momento em que ele já sábia o quão impulsiva ela é. O que sobra é só tristeza pelo tempo perdido e planos feitos. Woody Allen já imortalizou um amor passageiro em “Annie Hall”, já fez com que alguém valorizasse aquilo que é seu em “Hanna e suas Irmãs”, mas em “Para Roma com amor” ele fala de outro tipo amor fugaz, aquele não é imortal, aquele que não marca profundamente, que não te faz tremer diante da lembrança, aquele que simplesmente passa.

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