O “Mal” em “Laranja Mecânica”


O “Mal” em “Laranja Mecânica”

“O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.”
Augusto dos Anjos

O inicio do clássico de Kubrick é pontual, único, ao colocar o ancião morador de rua bebendo enquanto cita o passado de respeito do qual ele vem e o quão decadente o mundo se tornou. Diante da decadência atual, não é possível crer que havia uma forte tendência, um desejo forte, ao mal? Nos é dito com tamanha frequência que o mal vence quando os bons se calam, não é possível acreditar que, diante do silêncio da maioria, não há o desejo que o mal vença? “Laranja Mecânica” nos joga essas questões.

Alex é um jovem educado, com posses, talentos, beleza, no entanto, rouba, estupra e age com extrema violência. Um jovem que tem tudo, mas mesmo assim extravasa frustração em atos contínuos de crueldade. É importante notar que, ainda no inicio, o filme se esforça em mostrar que Alex não é uma exceção (há tanto outros jovens na mesma situação, o filme também faz questão de falar na crescente onda de violência) aquela é uma sociedade em que o mal entre os jovens é comum. A grande guinada e possível genealogia desse fato vem do tratamento Ludovico, em que Alex é submetido ao experimento que o faz abominar qualquer tipo de violência.

Ao ser liberto, uma nova onda de torturas começa. Ser expulso de casa, abusado pelo velho paraplégico, espancado pelos antigos companheiros de gangue. Há um incrível despreparo da sociedade para lidar com o jovem recuperado. Sem o medo que Alex causava nos pais, foi fácil para eles expulsa-lo de casa. Ao se tornar inofensivo, incapaz de cometer o mal, é que a sociedade o pune. Alex se torna um pária não por ter sido mal, mas por ter se tornado bom.

Algo para se notar, é que os mesmos garotos que acompanhavam Alex na gangue se tornam os oficiais da Lei. O mal que aqueles garotos representam no começo do filme se infiltra naquela que deveria ser a representante da ordem. Mesmo o velho paraplégico, em busca de uma “justiça”, tortura Alex de forma brutal, tendo como alvo a mente do jovem. Diante da violência, a única possível resposta é a violência.

Alex não tem escolha, não fazer o mal é sua nova prerrogativa em um mundo que não permite que alguém assim viva. No momento em que o tratamento começa a falhar, e os pensamentos violentos e sexuais começam a ter picos em sua mente, é quando ele passa a ser admirado pela sociedade. Aqui Kubrick fala sobre a natureza de Alex, sobre o mundo que o cerca, o desejo do mal não como algo pontual, mas sim uma força maior impulsionada pelo meio, um impulso do qual ninguém naquele mundo é capaz de fugir.

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